terça-feira, 19 de julho de 2011
Porque eu excluí meu Facebook e meu Twitter. Outra vez.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Deu a louca no Lobo mau
sábado, 11 de junho de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
A poesia que Cristo nunca escreveu

Houve um tempo em que os poetas deram a felicidade por perdida, e a trataram como uma genuína fantasia que atravessaria décadas. Fernando Antônio Nogueira Pessoa foi um dos que revelou em seus livros, que até mesmo a dor que se sente não passava de um fingimento, e que, em outro tempo, ser feliz exigia valentia.
Recentemente fui à uma exposição que aconteceu num centro cultural de minha cidade. Denominada “Fernando Pessoa, plural como o Universo”, a belíssima mostrava a multiplicidade da vida e da obra do escritor português, que não me convenceu dentre tantos encantos e sentimentalidades, de que seu afeto pela felicidade, havia muito tempo, estava corrompido. Saí de lá na companhia de alguns amigos e pensei: Acho que Fernando Pessoa nunca foi feliz.
Nunca é muito tempo, mas o poeta versa com qualquer sentimento. Ele ama e sofre na mesma estrofe e intensidade com que desama e é desventurado. Tem uma indiscutível capacidade de nos fazer acreditar em seus opostos. Não se sabe a constância do que ele sente. Seus versos estão sempre ao inverso. Na mostra, andei entre corredores que expressavam as mais íntimas e profundas declarações do homem considerado um enigma, que traduziu toda a sua crise com a verdade e a existência, mostrando através da poesia que o seu contentamento com a vida dependia completamente da sua inclinação para imaginar: "Viver não é necessário. O que é necessário é criar."
Pensando em felicidade, cresci num bairro pequeno de vizinhos quietos. Todos os dias, quando criança, saía às ruas para brincar com os filhos desses vizinhos quietos. Nós ríamos uns dos outros e ao tardar o dia, cada um voltava para suas casas. Eu sabia que nem todos iriam encontrar em seus lares o que gostariam. Mas nas horas em que estávamos juntos, isso era o que menos importava. O essencial para nosso grupo de meninos descalços, era o tempo onde iríamos compartilhar e celebrar essa verdade e existência, coisas que na época, não era difícil para nós. As crianças são os mais sinceros e felizes de todos os seres humanos. Ainda que vivam em circunstâncias desfavoráveis, fazem questão de nos ensinar a olhar além do que nossos olhos podem alcançar. Quando Cristo estava perto dos pequeninos, não usava outro exemplo mais puro e sublime do que seus corações. Ele tinha prazer no louvor deles e na fiel expressão da alegria que contagiava a todos, ainda que fosse diante do medo e insegurança. A criança sabe considerar como a vida é preciosa. Elas são, sim, a melhor poesia de Cristo.
Diferente de Fernando Pessoa, Jesus não escreveu uma poesia repleta de incertezas e hesitações. Não precisou de heterônimos para ajudá-lo a se manifestar e dizer coisas de amor. De um amor tão instável e tão cheio de covardia. Na poesia de Cristo não existiu fraqueza. Não existiu mistérios e nem fingimentos. Ele justificou através da vida de pessoas tão pequenas, que ainda que estivesse chutando mesas e cadeiras, ainda que o povo se sentisse atraído a padecer em tristeza, ódio e decepções, era o perfeito louvor que saía da boca das criancinhas que iria cativar corações ao seu completo cuidado.
Numa das salas da exposição, havia uma mesa com dezenas de seus livros. Eram as mais diversas capas e traduções. Enquanto sentada, olhava ao meu redor. Percebi que alguns ali liam cada linha com deveras cortesia e delicadeza. Escritores, estudantes, admiradores e curiosos foram contemplados pela grandeza de um dos maiores poetas que já existiu. Pelo absurdo de tamanha harmonia entre as palavras e a sua triste história que a mim deixou evidente as aflições de um homem sofredor, iludidas pelas alegrias de alguém apaixonado pelo que fazia. Otávio Paz, um poeta mexicano, vem dizer que na vida de Fernando “Nada é surpreendente. Nada, exceto os seus poemas". Eu digo que na vida de Cristo, tudo é surpreendente. Inclusive os seus poemas. Exceto o que ele nunca escreveu.
ALINE MOREIRA.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Lucas
quinta-feira, 28 de abril de 2011
ALFA, porque eles são o princípio.
Quando vi o comercial passando na Tv, fui tomada por uma imensa curiosidade: O que eu poderia encontrar numa revista destinada ao público masculino? Denominada "ALFA", chega à sua oitava edição trazendo na capa ninguém mais, nem menos do que o queridinho do Brasil: Luciano Huck. Sim. Eu comprei. Na dúvida entre ela e a tradicional ÉPOCA, que trazia assuntos relacionados a aplicativos para celular (Você já foi melhor, ÉPOCA!), decidi acabar de vez com esse mistério e descobrir o que, além de carros, mulheres e futebol, os homens pós-modernos andam cultivando em suas cabeceiras.
Inteligência - Boa vida - Elegância - Atitude: ALFA não apresenta o tipo de informação que responde aos interesses de todos os homens. Eu acho. Digo isso, porque seu conteúdo é totalmente reservado ao público que pode "pagar" pelo que ela "vende". Tão óbvio quanto uma Marie Claire da vida. Mas preciso confessar que a revista é realmente esclarecida. Eles sabem do que estão falando. As matérias são adornadas por um tamanho bom gosto, recheadas de bom humor e muito bem articuladas. E me confortou saber que: HOMENS TAMBÉM FALAM DE SAPATOS! Isso não é demais? Começando pelas palavras do diretor de redação, Kiko Nogueira, eu me diverti observando cada página, e achei o máximo ver que eles são mais sensíveis do que podemos imaginar.
Fui questionada se precisaria ler uma revista como esta para chegar à algumas conclusões. Não. É só uma questão de composição, afirmação, comunicação e retoque. Saber através de um veículo de informação o que os homens pensam sobre tudo que está acontecendo no mundo, não irá interferir no meu parecer à respeito deles. Defendo que, na vida, cada sexo contribui da maneira que lhe apraz. E eu aprecio muito a forma - correta - que o homem conduz e se inclina à sua vocação enquanto "o cabeça".
Bem, para começar, não há como fugir. Encontrei 10 propagandas sobre carros, dos mais variados estilos e todos exageradamente caros. 21 propagandas sobre roupas e acreditem, poucas coisas sobre nós, mulheres. Estavam indo muito bem, até eu chegar na penúltipa folha, de uma revista com 210 páginas, e encontrar um anúncio da "Playboy". Agora, eu só não sei em qual dos atributos em negrito citados acima, o exagerado anúncio se encaixa. Vai saber!?
Gostei de um jeito especial das entrevistas, que foram feitas por duAs repórteres, é claro. Que outro ser na face dessa terra poderia absorver de um indivíduo seu lado mais bonito, senão a mulher? Aos que gostam do U2, será surpreendido por uma entrevista com McCormick, amigo de infância de Bono Vox, que relata com muita autoironia e humor negro a sua relação com o astro. A sinceridade dele ao nos contar que "Bono roubou sua vida", é irreverentemente engraçada. Mais a frente, encontramos umas das últimas e doces palavras de José Alencar, que nos emociona novamente com tanta estabilidade em seu coração. Não fosse uma revista para "másculos" e minha tentativa ousada em compreendê-los, eu poderia ter chorado dentro do ônibus enquanto lia:
Não posso esquecer de contar que, antes disso, passei por uma página que me arrancou risadas. Quem são as donas das perguntas em seções de auto-ajuda e que assinam como anônimas? As mulheres, sempre. Pois os homens também não querem se revelar quando acham que estão se expondo ou perguntando algo considerado vergonhoso. Para deixar o ambiente mais masculino, eles chamaram a coluna de Fórum, unida de uma frase que contribui para tamanha discrição, é claro: Nossas respostas para suas dúvidas mais cruéis.
Ha. Ri das perguntas e da crueldade nas respostas. Até porque, quem as responde é um personagem. Dessa vez o convidado para amenizar o sofrimento dos rapazes foi o arrogante Rhett Butler, de E o vento levou. Levou mesmo. A reputação dos coitados embora. Você tem alguma pergunta? Escreva para: forumalfa@abril.com.br Sinto muito se calhar de ser o Mr. Bean a responder você! Ha! Mil vezes, HaHaHa!
Certo. Vamos voltar ao lado sério do negócio. Bem, temos uma página com uma receita. Hum. Apetitosa e bonita, a fotografia é de um frango crocante com risoto de tâmaras, dita perfeita para um jantar a dois. Entendem porque eu falo que essa revista não é para qualquer homem se inspirar? O kg da tâmara custa em média R$20,00. Quase o preço de uma pizza de fim de semana pra gente parar de reclamar. Oras, e para espantar a insegurança dos desacostumados na cozinha, eles colocam no final da página um asterisco: Alfa garante: esta receita não requer prática nem habilidade.
Ótimo. Desde de que ele lave a louça depois. Adorei o frango. Vou fazer qualquer dia. Seguindo. Tecnologia, cuecas, gravatas, dicas de etiqueta. Dicas de etiqueta? Sim. É. Dão dicas de como se portar diante de um homossexual. Parece um parto. Descrevem diversas situações e como se sair bem delas sem serem ofensivos e tornarem tudo embaraçoso. Interessante, até porque isso para os homens não é algo tão simples. Por mais tolerantes que pareçam ser, ou realmente sejam. Tudo bem. Entendo. Bons textos, opiniões, Huck ocupando quase dez páginas, uma matéria sobre Scarlett Johansson, blábláblá, Picasso e o sexo, mais carros, esporte e política. Ah, a política masculina! Excelente matéria falando sobre a tola disputa de Lula com seu antigo adversário FHC: Quem é o mais ativo ex-presidente do Brasil. Claro que é o Sarney. Isso é indiscutível! Mas a disputa é só entre os dois. Ok, então. Bem, levando em conta o preço da palestra de cada um: Lula 200 mil e FHC 180 mil, eu fico com FHC que, não é nada, não é nada, mas 20 mil faz muita diferença.
E como não poderia faltar, nosso príncipe meninas. Digo, o príncipe da Kate. Amigas, ele está lindo na foto. Porém tantas coisas para se falar sobre o nobre William, eles me vem com um papo de: Qual terno o príncipe vai usar na boda. Aloooouuu?? Ele tem um coração, sabia? Bando de ingratos! Oh, meu Deus... eu adorei a matéria sobre o chapéu Panamá contando a sua história. Havia falado hoje com uma amiga que quero tanto! No vitral da igreja de Cuenca, no Equador, até Jesus usa um. Porque não eu?
Mais ternos, falam sobre higiene (ufa!) e acreditem: Dizem que rosa é cor pra macho e que "abaixo o preconceito!". E mais: Afirmam que nós adoramos homens de roupa rosa. Tá. Nada contra, mas eu prefiro preto. Deixa o rosa pra mim. Não. Nem eu curto rosa tanto assim. Usem, seu lindos! Usem rosa à vontade. Mas não exagerem. Perfumes e um treinamento rigoroso para ficarem igual ao Wolverine. Amados, é possível isso? Sinto lhes informar: Wolverine é um personagem. É tudo mentirinha! Volta pra sala e vai ser seu futebol.
Café, a Playboy da qual já falei e pra encerrar com chave de ouro, uma página com fatos que os deixam muito assustados. O mais medonho, é a historinha da Gretchen que se casou pela décima quinta vez, se separa minutos após a cerimônia e já está de casamento marcado com o taxista que a levou para casa. Eu também não gosto disso, meus caros. Mas até que o vestido dela era bonito. Qual será o medo? De serem os próximos? Creio que não. Homens que lêem ALFA, estão sendo treinados para a vida. São muitas dicas e belas sugestões de como se tornarem verdadeiros cavalheiros contemporâneos. Adorei a revista. Inteligente mesmo. Muito mais interessante do que uma feminina. Só lamento ter que lembrar um detalhe. Pequeno, mas deveras importante: Vocês esqueceram da seção dos horóscopos. Meus amores... o que será de vocês se não souberem o que os aguarda no futuro e como será o nosso humor no dia seguinte? Tisc! Quase perfeitos. Quase.
Até a próxima!
sábado, 23 de abril de 2011
Zé Domingos
terça-feira, 15 de março de 2011
Eu conheci o Seu Darci
Uma história apimentada pra vocês.A pimenta “dedo de moça” é bonita. No Natal lá de casa, comprei algumas para decorar um dos pratos. Vermelhinhas, paguei um real em três delas. A única coisa que eu não sabia, era que seu Darci vendia de sua plantação em Vieira, um caixote de feira, cheio delas, por apenas uma nota de vinte. Ele mesmo me disse isso.
Quando ia em direção à casa de Patrícia, vi um senhor de 59 anos, de aparência cansada pelo tempo, no meio de um matagal bem desorganizado. Digo isso porque é muito comum aqui na cidadezinha, a plantação ser de uma ordem invejável. Mas seu Darci, não. Enquanto o grupo decidia na esquina em qual direção seguir, fui até ele e perguntei: - O que é isso, moço? E ele respondeu: - É pimenta “dedo de moça!” Disse como quem conhece. Como quem sabe e faz leitura de seu ofício todos os dias. Então um jovem se aproximou dele, dentro de seu quintal, e lhe ofereceu uma bíblia. - Ah, vocês são crentes? - disse ele. – Os crentes são bom! Nem sempre, seu Darci. Pensei. Segui meu caminho e decidi voltar ali outra hora.
Voltei.
- Ô senhor, posso entrar? Não. Não havia um portão e nem mesmo um muro cercando o lugar. Entrei e ele muito simpático – muito mesmo – me recebeu com um sorriso deveras incompleto, porém mais sincero impossível. Era homem negro, de barba branca encaracolada, vestindo um terno cinza desbotado e com uma bermuda sem braguilha. Descalço, arrancando encurvado as pimentas uma à uma:
– Pode chegar. Vem cá!
Eu estava sozinha. Olhei para um lado e outro e pensei: Aqui tem uma história. Dito e feito, Seu Darci foi um achado. Conversou comigo e me mostrou em meio ao seu “desorganizado mato”, o que pra ele era mais importante. Tudo que seu coração podia alcançar, importava.
- Eu não planto só pimenta, não. Eu planto milho branco também. Aipim e Inhame têm lá na lavoura. Me disse quando um milho está bom:
- Ele tem que tá envergado assim, ó.
Mostrou-me meia dúzia de folhas que lhe serviam na hora das dores:
- O nome dessa é “tibiótico”. – É o que Seu Darci?, Duvidei. – Tibiótico. É bom pra dor de cabeça.
Certo, então. Ele está dizendo. Alguns minutos depois apontou Dona Elza. Escondida naquela casinha de dois cômodos só, ela olhou desconfiada, mas logo veio falar também:
– Oi, tudo bom com a senhora? Falei. - Tudo bom. E você?
Juntos há quatro anos, me convidaram pra entrar e tomar um café. Mais três jovens se aproximaram e ficaram até o fim da nossa breve prosa. Perguntei à ele se gostava de assistir televisão: - Gosto. Gosto dos programa que fala de cura. De Jesus, de Deus.[...]
E nos contou assim da noite do dia onze:
- Eu vi a casa balançando, mas cheguei aqui na minha porta e falei com Deus. Eu tive muita fé. [...] Eu queria ajudar as pessoas na hora, mas num dá. A gente só faz o que pode.
Enquanto Dona Elza passava o café, ele contou que já havia sido casado:
- Eu tinha 22 e ela 14. Era uma menina, mas cozinhava muito bem. - Mas casou com ela, seu Darci?
- Não. Só juntei. Eu tenho uma filha, mas não sei dela não. [...] Já quis ir pra São Paulo, mas Elza não quis.
- E o senhor já casou com dona Elza? - Não. Só juntei também. Mas eu vou casar com ela.
Todos riram. Veio ela nos servir o café e eu agradeci:
- Muito obrigada, mas eu não bebo café. - Não bebe café? – perguntou ele. - Não. E nem refrigerante! - Você é saudável demais. Então você quer leite? Tem leite. Dá leite pra ela Elza.
Rimos outra vez. Descobrimos que a geladeira da casa não funcionava e que a usavam como se fosse um armário para guardar suas coisas. Falamos mais sobre pimenta.
- Só não bota a mão no olho!
Brinquei dizendo que eu era brava, como a pimenta e ele retrucou:
- Você é moça e pode ser braba, só que não queima como ela.
Foi divertido conhecer seu Darci. Uma pessoa que me intimidou com sua tamanha falta de constrangimento. Pela simplicidade que saía pelos poros. Pela sua razão em se contentar com tão pouco e ainda assim, querer compartilhar o pouco que tem. No dia seguinte, voltei lá. Ele estava esperando o moço que iria comprar o caixote de pimenta. Aquele que demorou quase duas semanas para encher.
- Vai vender por quanto, seu Darci? - Vou vender por vinte. - Não, seu Darci. Vende por 35! O que acha?
Ele riu e disse que assim o faria. Parece ter gostado da idéia. Resmungou algo do tipo:
- É. 35, né Elza?
Já indo embora, ele falou:
- Você não vai querer pimenta? - Tá bem. Só uma. - Só uma? - Resmungou com dona Elza. - Aqui. É tudo pra você.
Meu cálice transbordou. Eu sabia que ele não queria nada em troca. Foi só porque eu estive ali. Só falamos de pimenta e café. Cantei um trecho da “Tristeza do Jeca” e rimos das coisas importantes pra eles. Elas devem se tornar importantes para mim. Quando saía, com minha sacola cheia de pimentas, ele disse:
- Quando eu for casar vou mandar um convite pra você. Aí você vem fazer o casamento?
Disse sim, ri e agradeci. Então só pensei:
Talvez nunca mais o veja. Mas tudo bem. Não tem problemas. Eu já conheci o seu Darci. Tenho pelo que esperar.
Os bastidores:
Sobre a pimenta que ele me deu
Nunca mexi com pimenta. Gosto do cheiro dela, mas me atrevo cabreira quando coloco na comida. Acordei sábado passado e nem tomei café. Passei a mão na sacola. Estava ansiosa para preparar tudo e colocá-la num bom azeite que encontrei numa promoção. Adoro promoções. A boba aqui, começou a cortar os cabinhos das malaguetas como se fossem galhos de uva ou ponta de quiabo. Feliz da vida. Até aí, tudo bem. Preparei tudo. Coloquei no vidro. Ficou lindo. Algumas horas depois, minha mão pegava fogo!! Não há como descrever. Parecia um fósfoto aceso na palma dela. Passei a tarde toda passando gelo e sacudindo ela pela casa. Pois bem Seu Darci. O senhor só me disse pra não colocar a mão nos olhos, não a mão na pimenta! Levei ela lá pra casa... deixei lá. No alto do armário da cozinha da minha mãe. Um dia, algum corajoso vai entender do que eu estou falando.
Amora.
Aprendiz de pimenta.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Mãos dadas
sábado, 12 de março de 2011
Bom fim de semana
quarta-feira, 9 de março de 2011
Quando estive em Vieira
Tênis branco não foi uma boa idéia. Pensei que nessas horas, isso é o que menos importa.
Por rastros de barro novamente molhado, foi que desci por uma das ruas de Vieira, ansiosa para que meus olhos encontrassem logo um portão onde eu pudesse parar. Então, vi três pessoas que olhavam em minha direção. Que bom. Eu só precisava disso. Patrícia me recebeu com um sorriso educado. Bonito e aberto. Como quem diz: Seja bem-vinda. E numa conversa pouca, ela me contou o que a sua lembrança guardava daquela noite a qual nunca mais vai esquecer.
Eu sabia que ela continuaria a sorrir se eu dissesse que seu nome era bonito. Patrícia, chama ela. Assim o fiz. Ela sorriu. Gosto de fazer isso. Casada com Djalma, um homem jovem, de olhar afetuoso e trabalhador, ela diz que toda família trabalha na lavoura. “Aqui, todo mundo ajuda todo mundo!”, fala a filha de 12 anos. Esperta e sabida, me quis a menina fazer atravessar o rio. Sem medo, quase me convenceu. E planta-se alface, cebolinha e toda espécie de cheirinhos e verdes que conhecemos. Vieira tem cheiro mesmo é de salada. Isso é um belo trabalho, eu disse ao Srº Djalma, que completou: “Mas tudo ficou mais difícil pra nós. A água levou nossos material tudo. [...] Uma caixa de alface eu vendo por quinze reais. Aí eles revendem, e essa pessoa é quem passa pros mercados onde vocês vão. A gente aqui da roça é explorado demais. Explorado demais. [...]”
Em Vieira, as casas parecem pontos pequenos entre as montanhas. Não há sinal do governo, ou tipo algum de assistência que os cabe por direito. Há, sim, uma série de voluntários e amigos bem intencionados, que fazem parte de um rodízio humano desde que tudo isso começou. Seja para acalentar ou disfarçar o remorso, registrar a dor da perda alheia na memória ou mesmo por entender que, é no estender das mãos que eu sou mais do que um cumpridor de tarefas: Eu sou a extensão do amor que habita em mim. E ao falar das dificuldades, Patrícia engasgou um choro guardado pra gente. (Sobre a dor, ela me incomoda e me faz sentir estranha. Não sei consolar. É um desconforto que nos pertence, se realmente soubermos o que fomos fazer ali. Afinal, o que nós realmente fomos fazer naquele lugar?) Seu sogro, um senhor já de idade, cunhados e sobrinhos, não estavam mais lá para nos contar também o acontecido. Nos contar como, às vezes - nem sempre - a gente consegue fazer algo para salvar alguém. Convidando-me pra ir até a varanda de trás de sua casa, eu ouvi o barulho pesado do rio e ela lembrou assim:
“Tá vendo aquelas pedras ali? Elas não estavam lá. A água trouxe tudo. Aquele pedaço de concreto, vê? É da ponte que foi carregada também. Lá do outro lado do rio é onde a gente trabalha. A gente atravessa o rio todo dia, por dentro da água mesmo, pra ir lá. Não tem como fazer de outro jeito. Tem que plantar ! Na noite do dia onze, parecia que tava chovendo dentro do nosso quarto. Eu levantei e falei: Djalma, acende uma vela e vai lá fora ver isso. Mas a gente não via nada. Tava tudo escuro e só os relâmpagos clareava aqui. Não tinha luz aqui. Depois o menino veio pedindo nossa ajuda. Foi quando a gente viu que tava acontecendo alguma coisa. Eles tavam lá embaixo pedindo socorro, mas o barulho do rio e da chuva não deixava a gente escutar. A gente gritava daqui e eles não ouviam a gente. Tudo que eu mais queria e pedi pra Deus, foi que o dia amanhecesse logo pra que eu pudesse ver. [...]” Patrícia conta que pela manhã, tudo havia mudado e prosseguiu: “A gente conseguiu salvar minha sogra que não foi levada não. Mas a Sônia e seu marido... Eu gostava tanto dela. Passava na casa dela todo dia pra gente conversar. Eu jurava que ela ia sair da casa, menina. Mas ela não saiu.[...]”
Falou de sua fé em Deus. Disse que só com Ele consegue e nos mostrou paz ao dizer: “Eu sei que tem coisas que nunca vou saber e que só Ele sabe.” E insistiu com a sua fé. Nos mostrou o cachorro da família que, curiosamente, afirmam os donos que ele gosta de andar de moto. Ela contou também da sua vontade de estudar sobre informática e que só tinha saído de Vieira, para fazer um curso com a sua igreja em Nova Iguaçu. “Queria mesmo conhecer Copacabana. Lá é lindo, né? Mas eu gosto de viver aqui.”, diz olhando pro rio passando atrás de sua casa. Estava chovendo na hora. Sr. Djalma espera Deus abençoar para comprar um caminhão. Patrícia é uma mulher como qualquer outra de qualquer lugar do mundo. É bonita, é simples e sabe amar muito bem. Eu não, Patrícia. Eu sei nada da dor que você sente. Mas estou de luto com você. Pelas Sônias, Joãos e Filipes. Pelos nove de uma casa só por e tantos outros. Você é uma pessoa forte. Obrigada. Eu vi que, apesar de tudo, você é uma mulher feliz.
ALINE MOREIRA.




