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terça-feira, 15 de março de 2011

Eu conheci o Seu Darci

Uma história apimentada pra vocês.

A pimenta “dedo de moça” é bonita. No Natal lá de casa, comprei algumas para decorar um dos pratos. Vermelhinhas, paguei um real em três delas. A única coisa que eu não sabia, era que seu Darci vendia de sua plantação em Vieira, um caixote de feira, cheio delas, por apenas uma nota de vinte. Ele mesmo me disse isso.

Quando ia em direção à casa de Patrícia, vi um senhor de 59 anos, de aparência cansada pelo tempo, no meio de um matagal bem desorganizado. Digo isso porque é muito comum aqui na cidadezinha, a plantação ser de uma ordem invejável. Mas seu Darci, não. Enquanto o grupo decidia na esquina em qual direção seguir, fui até ele e perguntei: - O que é isso, moço? E ele respondeu: - É pimenta “dedo de moça!” Disse como quem conhece. Como quem sabe e faz leitura de seu ofício todos os dias. Então um jovem se aproximou dele, dentro de seu quintal, e lhe ofereceu uma bíblia. - Ah, vocês são crentes? - disse ele. – Os crentes são bom! Nem sempre, seu Darci. Pensei. Segui meu caminho e decidi voltar ali outra hora.

Voltei.

- Ô senhor, posso entrar? Não. Não havia um portão e nem mesmo um muro cercando o lugar. Entrei e ele muito simpático – muito mesmo – me recebeu com um sorriso deveras incompleto, porém mais sincero impossível. Era homem negro, de barba branca encaracolada, vestindo um terno cinza desbotado e com uma bermuda sem braguilha. Descalço, arrancando encurvado as pimentas uma à uma:

– Pode chegar. Vem cá!

Eu estava sozinha. Olhei para um lado e outro e pensei: Aqui tem uma história. Dito e feito, Seu Darci foi um achado. Conversou comigo e me mostrou em meio ao seu “desorganizado mato”, o que pra ele era mais importante. Tudo que seu coração podia alcançar, importava.
- Eu não planto só pimenta, não. Eu planto milho branco também. Aipim e Inhame têm lá na lavoura. Me disse quando um milho está bom:

- Ele tem que tá envergado assim, ó.

Mostrou-me meia dúzia de folhas que lhe serviam na hora das dores:

- O nome dessa é “tibiótico”. – É o que Seu Darci?, Duvidei. – Tibiótico. É bom pra dor de cabeça.

Certo, então. Ele está dizendo. Alguns minutos depois apontou Dona Elza. Escondida naquela casinha de dois cômodos só, ela olhou desconfiada, mas logo veio falar também:
– Oi, tudo bom com a senhora? Falei. - Tudo bom. E você?

Juntos há quatro anos, me convidaram pra entrar e tomar um café. Mais três jovens se aproximaram e ficaram até o fim da nossa breve prosa. Perguntei à ele se gostava de assistir televisão: - Gosto. Gosto dos programa que fala de cura. De Jesus, de Deus.[...]

E nos contou assim da noite do dia onze:

- Eu vi a casa balançando, mas cheguei aqui na minha porta e falei com Deus. Eu tive muita fé. [...] Eu queria ajudar as pessoas na hora, mas num dá. A gente só faz o que pode.

Enquanto Dona Elza passava o café, ele contou que já havia sido casado:
- Eu tinha 22 e ela 14. Era uma menina, mas cozinhava muito bem. - Mas casou com ela, seu Darci?
- Não. Só juntei. Eu tenho uma filha, mas não sei dela não. [...] Já quis ir pra São Paulo, mas Elza não quis.

- E o senhor já casou com dona Elza? - Não. Só juntei também. Mas eu vou casar com ela.

Todos riram. Veio ela nos servir o café e eu agradeci:
- Muito obrigada, mas eu não bebo café. - Não bebe café? – perguntou ele. - Não. E nem refrigerante! - Você é saudável demais. Então você quer leite? Tem leite. Dá leite pra ela Elza.

Rimos outra vez. Descobrimos que a geladeira da casa não funcionava e que a usavam como se fosse um armário para guardar suas coisas. Falamos mais sobre pimenta.
- Só não bota a mão no olho!

Brinquei dizendo que eu era brava, como a pimenta e ele retrucou:
- Você é moça e pode ser braba, só que não queima como ela.

Foi divertido conhecer seu Darci. Uma pessoa que me intimidou com sua tamanha falta de constrangimento. Pela simplicidade que saía pelos poros. Pela sua razão em se contentar com tão pouco e ainda assim, querer compartilhar o pouco que tem. No dia seguinte, voltei lá. Ele estava esperando o moço que iria comprar o caixote de pimenta. Aquele que demorou quase duas semanas para encher.
- Vai vender por quanto, seu Darci? - Vou vender por vinte. - Não, seu Darci. Vende por 35! O que acha?

Ele riu e disse que assim o faria. Parece ter gostado da idéia. Resmungou algo do tipo:

- É. 35, né Elza?
Já indo embora, ele falou:
- Você não vai querer pimenta? - Tá bem. Só uma. - Só uma? - Resmungou com dona Elza. - Aqui. É tudo pra você.

Meu cálice transbordou. Eu sabia que ele não queria nada em troca. Foi só porque eu estive ali. Só falamos de pimenta e café. Cantei um trecho da “Tristeza do Jeca” e rimos das coisas importantes pra eles. Elas devem se tornar importantes para mim. Quando saía, com minha sacola cheia de pimentas, ele disse:
- Quando eu for casar vou mandar um convite pra você. Aí você vem fazer o casamento?

Disse sim, ri e agradeci. Então só pensei:
Talvez nunca mais o veja. Mas tudo bem. Não tem problemas. Eu já conheci o seu Darci. Tenho pelo que esperar.


Os bastidores:
Sobre a pimenta que ele me deu


Nunca mexi com pimenta. Gosto do cheiro dela, mas me atrevo cabreira quando coloco na comida. Acordei sábado passado e nem tomei café. Passei a mão na sacola. Estava ansiosa para preparar tudo e colocá-la num bom azeite que encontrei numa promoção. Adoro promoções. A boba aqui, começou a cortar os cabinhos das malaguetas como se fossem galhos de uva ou ponta de quiabo. Feliz da vida. Até aí, tudo bem. Preparei tudo. Coloquei no vidro. Ficou lindo. Algumas horas depois, minha mão pegava fogo!! Não há como descrever. Parecia um fósfoto aceso na palma dela. Passei a tarde toda passando gelo e sacudindo ela pela casa.
Pois bem Seu Darci. O senhor só me disse pra não colocar a mão nos olhos, não a mão na pimenta! Levei ela lá pra casa... deixei lá. No alto do armário da cozinha da minha mãe. Um dia, algum corajoso vai entender do que eu estou falando.

Paz e bem.
Amora.
Aprendiz de pimenta.

8 comentários:

Anônimo disse...

Linda narrativa,filha... nos transporta pra um lugar que não conhecemos, mas que nos passa, com ar de intimidade, a sensação de estarmos ali, bem perto, fazendo parte da vida de cada personagem. parabéns!... Um pouquinho mais de dedicação e acho que está na hora de pensarmos num livro, o que acha?... bjs....

Aline disse...

Hum... boa idéia, pai.


Amor Amora =)

Aline disse...

Acabei de descobrir que gelo piora a situação. Imagina... só usei uma forma inteira, quase. Explicado parte do meu desespero!

Anônimo disse...

Queremos textos... queremos textos... queremos textos...

William Oliveira disse...

Hum, quer dizer então que a senhorita aí planeja uns saltos na revista piauí, é?
Bacana história, embora eu ache pouco provável que ele consiga vender a pimenta pelo valor que você sugeriu. Acho que a agricultura familiar é um dos mais injustos nichos da economia moderna. No fim das contas quem acaba fixando o preço (uma mixaria, diga-se) são os famosos atravessadores, que julgam -- enganosamente -- fazer o trabalho mais importante desta empreitada.
Abraços,
w.

Aline disse...

Rapaz, revista Piauí é ótima. Os textos não tem aquele peso jornalístico, com a captação sequenciada de informações. Do tipo que canta Moska: "Será que somos robores programados pra dizer: amém?" E as matérias são muito interessantes. Lá, é como se o leitor tivesse "voz". Enfim, você acredita que essa burguesia infame investe em casas e agricultura lá na serra, por acreditarem religiosamente que a água em breve vai acabar por aqui? Mais fiel ao "farinha pouco, meu pirão primeiro", impossível!

Guerreiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline disse...

Will e Pai, meus fiéis leitores: Como vocês deixam eu escrever errado?? Paiê... tem que falar na hora!!

Will, pode falar, eu não me importo!

Robores não existe. Eu sei. Mas eu jurava que Moska cantava assim. Poeticamente, tudo é liberado. Mas ele canta certinho: Robôs!

;)