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quarta-feira, 9 de março de 2011

Quando estive em Vieira

Eu conheci Patrícia e Djalma.

Tênis branco não foi uma boa idéia. Pensei que nessas horas, isso é o que menos importa.

Por rastros de barro novamente molhado, foi que desci por uma das ruas de Vieira, ansiosa para que meus olhos encontrassem logo um portão onde eu pudesse parar. Então, vi três pessoas que olhavam em minha direção. Que bom. Eu só precisava disso. Patrícia me recebeu com um sorriso educado. Bonito e aberto. Como quem diz: Seja bem-vinda. E numa conversa pouca, ela me contou o que a sua lembrança guardava daquela noite a qual nunca mais vai esquecer.

Eu sabia que ela continuaria a sorrir se eu dissesse que seu nome era bonito. Patrícia, chama ela. Assim o fiz. Ela sorriu. Gosto de fazer isso. Casada com Djalma, um homem jovem, de olhar afetuoso e trabalhador, ela diz que toda família trabalha na lavoura. “Aqui, todo mundo ajuda todo mundo!”, fala a filha de 12 anos. Esperta e sabida, me quis a menina fazer atravessar o rio. Sem medo, quase me convenceu. E planta-se alface, cebolinha e toda espécie de cheirinhos e verdes que conhecemos. Vieira tem cheiro mesmo é de salada. Isso é um belo trabalho, eu disse ao Srº Djalma, que completou: “Mas tudo ficou mais difícil pra nós. A água levou nossos material tudo. [...] Uma caixa de alface eu vendo por quinze reais. Aí eles revendem, e essa pessoa é quem passa pros mercados onde vocês vão. A gente aqui da roça é explorado demais. Explorado demais. [...]”

Em Vieira, as casas parecem pontos pequenos entre as montanhas. Não há sinal do governo, ou tipo algum de assistência que os cabe por direito. Há, sim, uma série de voluntários e amigos bem intencionados, que fazem parte de um rodízio humano desde que tudo isso começou. Seja para acalentar ou disfarçar o remorso, registrar a dor da perda alheia na memória ou mesmo por entender que, é no estender das mãos que eu sou mais do que um cumpridor de tarefas: Eu sou a extensão do amor que habita em mim. E ao falar das dificuldades, Patrícia engasgou um choro guardado pra gente. (Sobre a dor, ela me incomoda e me faz sentir estranha. Não sei consolar. É um desconforto que nos pertence, se realmente soubermos o que fomos fazer ali. Afinal, o que nós realmente fomos fazer naquele lugar?) Seu sogro, um senhor já de idade, cunhados e sobrinhos, não estavam mais lá para nos contar também o acontecido. Nos contar como, às vezes - nem sempre - a gente consegue fazer algo para salvar alguém. Convidando-me pra ir até a varanda de trás de sua casa, eu ouvi o barulho pesado do rio e ela lembrou assim:

“Tudo que eu mais queria e pedi pra Deus, foi que o dia amanhecesse logo pra que eu pudesse ver. [...]”

“Tá vendo aquelas pedras ali? Elas não estavam lá. A água trouxe tudo. Aquele pedaço de concreto, vê? É da ponte que foi carregada também. Lá do outro lado do rio é onde a gente trabalha. A gente atravessa o rio todo dia, por dentro da água mesmo, pra ir lá. Não tem como fazer de outro jeito. Tem que plantar ! Na noite do dia onze, parecia que tava chovendo dentro do nosso quarto. Eu levantei e falei: Djalma, acende uma vela e vai lá fora ver isso. Mas a gente não via nada. Tava tudo escuro e só os relâmpagos clareava aqui. Não tinha luz aqui. Depois o menino veio pedindo nossa ajuda. Foi quando a gente viu que tava acontecendo alguma coisa. Eles tavam lá embaixo pedindo socorro, mas o barulho do rio e da chuva não deixava a gente escutar. A gente gritava daqui e eles não ouviam a gente. Tudo que eu mais queria e pedi pra Deus, foi que o dia amanhecesse logo pra que eu pudesse ver. [...]” Patrícia conta que pela manhã, tudo havia mudado e prosseguiu: “A gente conseguiu salvar minha sogra que não foi levada não. Mas a Sônia e seu marido... Eu gostava tanto dela. Passava na casa dela todo dia pra gente conversar. Eu jurava que ela ia sair da casa, menina. Mas ela não saiu.[...]”

Falou de sua fé em Deus. Disse que só com Ele consegue e nos mostrou paz ao dizer: “Eu sei que tem coisas que nunca vou saber e que só Ele sabe.” E insistiu com a sua fé. Nos mostrou o cachorro da família que, curiosamente, afirmam os donos que ele gosta de andar de moto. Ela contou também da sua vontade de estudar sobre informática e que só tinha saído de Vieira, para fazer um curso com a sua igreja em Nova Iguaçu. “Queria mesmo conhecer Copacabana. Lá é lindo, né? Mas eu gosto de viver aqui.”, diz olhando pro rio passando atrás de sua casa. Estava chovendo na hora. Sr. Djalma espera Deus abençoar para comprar um caminhão. Patrícia é uma mulher como qualquer outra de qualquer lugar do mundo. É bonita, é simples e sabe amar muito bem. Eu não, Patrícia. Eu sei nada da dor que você sente. Mas estou de luto com você. Pelas Sônias, Joãos e Filipes. Pelos nove de uma casa só por e tantos outros. Você é uma pessoa forte. Obrigada. Eu vi que, apesar de tudo, você é uma mulher feliz.

Vieira, 06 de março de 2011.

ALINE MOREIRA.

4 comentários:

William Oliveira disse...

Belo texto, mocinha -- apesar de que um elogio como este pode acabar soando insensível à história da Patrícia...

Aline disse...

O que é belo nunca se torna insensível, Will...

Obrigada =)

euro disse...

Show!

... disse...

Em meio a tanto caos...só um olhar artístico e sensível pra enchergar e extrair tanta beleza e fazer dela uma poesia...que toca, comove e traz esperança...ótima visão e que história!